quinta-feira, 2 de agosto de 2007
A gota final
Os olhos azuis refletiam a chama por trás das mexas negras. Eles eram a única coisa que demonstrava vida atrás das olheiras profundas de sua face magra. A fumaça do cigarro subia beirando as paredes do canto escuro em que estava. O chão e paredes frios adormeciam-lhe o corpo. Seu caderno de rascunhos estava jogado ao seu lado junto com a pena e a tinta. Mantinha um braço apoiado no joelho enquanto segurava o cigarro. Seus olhos estavam fixados no estilete ao seu lado. Aquele seria seu ultimo poema, e seria de matar. Levantando-se apanhou as coisas jogadas e dirigiu-se até a escrivaninha. Ele acendeu uma vela, odiava escrever sob a luz artificial, “Luzes elétricas tiram todo o clima da coisa. Não há nada como escrever ao sol do meio-dia ou sob a luz de uma vela” é o que costumava dizer. Puxou então seu caderno e sua pena. Havia um frasco vazio bem ao seu lado, o qual olhou fixamente por um longo tempo. Ele fechou os olhos tentando manter fixos os versos em que pensara, deu um suspiro e pegou o estilete. As luzes dançantes da chama refletiam na lamina metálica iluminando seus olhos. O brilho fazia o azul de seus olhos brilharem como as águas de um lago. Ele hesitou por um instante com a lamina em mãos. Fechou novamente os olhos, respirou fundo e num movimento rápido cortou o próprio pulso. Finalmente estava feito. Rapidamente ele posicionou a ferida recém aberta na boca do frasco para que nada fosse desperdiçado. Então ele mergulhou a ponta da pena no fluido escarlate da vida. Ele agora devia se apressar. As linhas vermelhas iam tomando forma em seu caderno. A pena parecia chorar sangue enquanto deixava seu rastro no papel. Minutos se passaram e o liquido rubro já transbordara do recipiente e pingava no chão. Seus sentidos começavam a falhar enquanto os últimos versos eram declamados na folha. Os segundos pareciam correr mais devagar para que ele pudesse terminar a tempo. Então aconteceu. Ambos estavam finalmente terminados. Seu poema e sua vida triunfantemente chegaram ao seu termino. Ambos com o mesmo ponto final.
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